
O segundo dia de programação do Festival Literário Internacional da Paraíba (FliParaíba 2025), realizado nessa sexta-feira (28) no Centro Cultural São Francisco, em João Pessoa, contou com a presença de escritores renomados em mesas temáticas que discutiram ancestralidade, identidade e o futuro da democracia. O espetáculo poético-musical de Lukete e o concerto da cantora Maria Gadú com a Camerata Parahyba, encerraram a noite.
A manhã teve início com feira de livros com lançamentos e sessão de autógrafos, a exposição Versos Parahybridos que traz imagens e poemas de pessoas das comunidades indígenas, quilombolas e ciganas da Paraíba, oficinas de cordel e de xilogravura. Um momento marcante foi o toré indígena, que teve 40 anciãos potiguaras dos municípios de Rio Tinto, Marcação e Baía da Traição. Também teve a batalha do conhecimento, na qual MCs selecionados fizeram rimas inspiradas/baseadas em publicações literárias de escritores paraibanos e paraibanas.
Mesas temáticas compuseram a programação ao longo do dia. Aline Cardoso, escritora paraibana compôs a primeira mesa que abordou a questão da língua como território de cidadania. "A poesia é fonte vital, magia, uma forma de existir. A poesia abre espaço para que as vozes, antes apagadas, possam finalmente ser escutadas. A língua não nasce nos livros, ela nasce no chão onde o povo pisa. Ela está no sotaque, ela é memória viva. A nossa língua se reinventa todo santo dia na boca do povo. A palavra é viva", comentou.
Na mesa com o tema Vozes Ancestrais, a escritora Eva Potiguara deixou alguns questionamentos sobre identidade. "A identidade vem daquilo que dizem quem você é? Ela vem daquilo que alguém da sua família te ensinou? Como falar de ancestralidade, sem pensar criticamente sobre identidade? Se você não tem relação com a mãe terra, você perdeu o caminho, você perdeu a sua origem. O animal sabe quem ele é, sabe desde que ele nasce, o que ele tem que fazer até o último dia de vida. A nossa identidade perde moralidade, perde ancestralidade, perde memórias vivas", frisou.
Já em outra mesa de diálogos, o escritor Silviano Santiago comentou sobre a temática: A língua como território de cidadania. "Os descendentes dos povos africanos abrem uma diferença no que se entende do Ocidente por uma moderna língua nacional. Em Portugal, trova a língua portuguesa vernácula. No Brasil, o português se transforma na língua europeia que desde os tempos coloniais tem sido falada pelos habitantes das várias etnias responsáveis pela construção do Brasil, hoje um Estado-nação. A diferença se estabelece também por outro importante detalhe de expressão, o forte da língua europeia é a escrita, já o forte da língua brasileira, dela derivada, é a oralidade. Nos manuais escolares modernos, o estudante brasileiro tem, ao lado de Os Lusíadas de Camões, os versos do poema Evocação do Recife, 1925, de Manuel Bandeira. Que é assim, a vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros. Vinha da boca do povo, na língua errada do povo, língua certa. Por quê? Ele é que fala o gostoso, o português no Brasil."
O escritor baiano Itamar Vieira Jr. explicou como se deu o seu primeiro contato com a escrita, na mesa sob o tema: Ai se sêsse: a palavra dançando no ouvido. "A literatura, por mais que ela seja esse registro escrito, esse registro que tem aí uma história muito antiga, ela nasce da oralidade. Quando eu penso, por exemplo, nas tragédias gregas, lembro que elas eram escritas, mas elas eram sobretudo faladas, atuadas. Era essa a maneira que ela encontrava o público. Não era um texto escrito, era o que estava sendo interpretado ali pelos atores. A poesia moderna, como nós conhecemos, nasce da trova e a trova é essa poesia cantada. Ou seja, eu tenho uma história com a música muito forte, porque eu cresci em uma casa de não leitores, mas meu pai era um profundo admirador da música popular brasileira e o tempo que ele estava em casa, o rádio estava ligado e eu estava escutando música popular brasileira. E ali foi meu primeiro contato com a palavra, com a poesia, com a composição, com a harmonia, com a narrativa, com a musicalidade, porque muitas canções são grandes poemas narrativos, né? E aí eu vejo que o meu projeto deslanchou quando eu percebi a importância da oralidade para ele. Foi dessa maneira que nasceram as histórias", ressaltou.
Também nessa sexta-feira, Josafá de Orós ministrou a oficina de xilogravura no Fliparaíba e ressaltou a importância de eventos que promovem a valorização cultural. "Primeiro eu quero agradecer pelo convite para participar do FliParaíba, que é um evento muito importante que valoriza a literatura, que coloca em evidência aqueles que fazem a literatura paraibana e dos países lusófonos. E a gente veio aqui exatamente para mostrar aquilo que a gente tem de mais nordestino, como é o Cordel, que houve oficina pela manhã, e à tarde, a oficina de xilogravura. É muito importante esse festival por continuar fortalecendo a cultura como estratégia e como política de Estado. Acredito que a gente precisa evidenciar o que a gente tem de mais importante, o que dá identidade a qualquer região do país, que é a cultura", pontuou.
O festival é uma realização do Governo da Paraíba, por meio da Secretaria de Estado da Cultura (Secult-PB), em parceria com a Empresa Paraibana de Comunicação (EPC), Fundação Espaço Cultural (Funesc), Associação Portugal Brasil 200 anos (APBRA) e Centro Cultural São Francisco.
Sábado no FliParaíba - A programação inicia às 9h e se estende até 23h, com a reta final das oficinas de cordel e de xilogravura, no qual os trabalhos realizados pelos participantes serão impressos para exposição, feira de livros com lançamentos e sessão de autógrafos e exposição Versos Parahybridos. Outra parte importante do último dia do FliParaíba é o Espaço Curumim, dedicado ao público infantojuvenil, com toré indígena infantil, contação de histórias quilombolas, indígenas e ciganas, teatro de bonecos, além disso a programação continua com cinco mesas temáticas com autoras e autores convidados para debater a língua portuguesa. Terá também a final da batalha do conhecimento com premiações para os três primeiros lugares, toré indígena em um momento histórico com mais de 30 caciques tabajaras e potiguaras, e encerrando o festival em grande estilo, os shows de Joyce Alane e Mariana Aydar.
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