
No pátio da Escola Estadual Professor José Vitorino da Rocha, no bairro do Farol, em Maceió, o som que ecoa não é apenas o da sineta indicando os horários das aulas ou do intervalo. É o das vozes de 150 crianças, entre 6 e 10 anos, que chamam pela "Tia Duda". O que para os pequenos é cotidiano, para a história da educação brasileira é um marco. Eduarda Elisa Monteiro de Lima é a primeira mulher trans negra eleita para gerir uma escola estadual em Alagoas.
A celebração deste 29 de janeiro — Dia Nacional da Visibilidade Trans — ganha mais representatividade em Alagoas com a trajetória de Eduarda. Sua vitória, sacramentada com 92% dos votos válidos ao lado do vice-gestor Marcus Affonso, não foi uma imposição administrativa, mas um selo de confiança da comunidade escolar. Para ela, ocupar este cargo em 2026 é um ato de sobrevivência e validação política.
 (2).jpeg)
"É saber que estatisticamente estou inserida no país que mais mata pessoas trans no mundo e, mesmo assim, eu não morri", afirma a gestora, referindo-se aos dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Estar ali é demonstrar que corpos como o seu possuem direitos, dignidade e competência que transcendem o gênero ou a orientação sexual. Da infância à gestão da escola A trajetória de Eduarda Elisa, hoje com 29 anos, é um retrato das superações que moldam Alagoas. Filha de Maria Vânia, empregada doméstica natural de Pão de Açúcar, e de José Cícero, montador de móveis de Viçosa, ela cresceu entre a ausência física dos pais, imposta pela dureza do trabalho, e o acolhimento da escola pública.
O destino de Eduarda Elisa começou a ser traçado aos oito anos, na mesma Vitorino da Rocha que hoje dirige. Foi ali que ela viu na professora Fátima a inspiração para seu futuro. A gestora recorda que, na infância, a escola se fez um lugar seguro diante de um lar marcado por dificuldades e pela violência doméstica.
Hoje, ao olhar para seus alunos das oito salas de aula da unidade, ela enxerga a si mesma. Essa conexão emocional reflete-se em sua conduta, uma escuta sensível, um abraço e o cuidado constante em saber se a criança já lanchou. "Sinto que a escola onde fui aluna e hoje sou líder deve ser multiplicadora de sonhos", pontua.
Do magistério ao mestrado
Engana-se quem pensa que a ascensão de Eduarda Elisa foi facilitada. Sua "blindagem" contra o preconceito foi construída com rigor acadêmico. Após concluir o ensino médio na Escola Moreira e Silva e passar pelo magistério, ela ingressou em Pedagogia na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) em 2016.
O ano de 2022 foi o seu divisor de águas. Ela foi aprovada simultaneamente no concurso público do Estado e no Mestrado em Ensino de Ciências e Matemática (PPGECIM-Ufal). Essa excelência técnica reflete nos números. Integrada à 13ª Gerência Especial de Educação (GEE). A escola viu o Ideb saltar de 4.8 em 2021 para 6.3 em 2023. Eduarda explica que o índice é o termômetro da qualidade, e que sua meta é manter a "receita" que já vem funcionando: aulas dinâmicas, uso de tecnologias e foco no socioemocional. O resultado mais recente dessa fórmula é a aprovação de estudantes no concorrido Colégio Militar Tiradentes.
A "metamorfose" e o diálogo com as famílias
A transição de gênero de Eduarda Elisa, iniciada em 2024 dentro da unidade, foi tratada com a transparência de quem educa. Ela conta que utilizou a metáfora da borboleta para explicar as mudanças naturais às crianças, com o apoio da psicologia escolar. O acolhimento dos pequenos foi imediato, mas a conquista dos pais exigiu postura profissional e diálogo.
A professora acredita que sua presença ajuda a educar não apenas os alunos, mas as famílias sobre respeito e diversidade. Ela cita o ditado popular "quem beija meu filho, minha boca adoça" para explicar como o carinho pelos estudantes derreteu barreiras ideológicas.
Pedagogia da desobediência
-(14).jpg.jpeg)
Inspirada pela autora Thiffany Odara, Eduarda Elisa aplica o que chama de "Pedagogia da Desobediência", que consiste em não reproduzir os eixos de opressão social na sala de aula. Seu plano de gestão para o biênio 2026-2027 inclui parcerias com a Ufal, Ordem dos Advogados do Brasil e Ministério Público para combater o racismo e a LGBTfobia. Para o aluno que hoje se sente "invisível", a diretora que venceu as estatísticas deixa um mantra. "Você não precisa ser popular para alcançar grandes feitos, mas precisa entender que o conhecimento é a única coisa que não pode tirar de você".
Ao final do dia, se pudesse encontrar a "Eduarda criança" de décadas atrás, ela diria com os olhos marejados: "olá, Eduarda Elisa. Você será a primeira diretora trans, e isso é histórico. Parabéns, você venceu!". A história da gestora do Farol prova que, onde há educação e afeto, as portas que se abrem jamais podem ser fechadas.