
Em 1969, enquanto Neil Armstrong dava os seus primeiros passos na Lua, o município de Carrapateira também entrava para a história, mas por uma realidade bem diferente do avanço tecnológico que maravilhava o mundo. A pequena cidade do Sertão da Paraíba sequer tinha energia elétrica para assistir ao feito mundial e ficou conhecida como o lugar que “tinha ciúmes da Apollo 11”, devido ao contraste de desigualdade social. Meio século depois, uma ironia se revelou: foi justamente aquilo que antes representava um atraso, o isolamento, o silêncio e a geografia, que colocou Carrapateira no centro da ciência contemporânea através da construção da Cidade da Astronomia.
Essa mudança não aconteceu por acaso. Embora a trajetória de Carrapateira lembre um roteiro de ficção, com direito a reviravoltas e um final feliz, o futuro do município está sendo construído de forma técnica e planejada, com base em dados científicos. A Cidade da Astronomia é uma iniciativa do Governo da Paraíba, por meio da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior (Secties), pensada para aproximar a população da ciência, promover o letramento científico e consolidar o município como polo de divulgação e educação astronômica.
Para o secretário de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior, Claudio Furtado, a transformação de Carrapateira evidencia o papel da política pública como instrumento concreto de mudança social e territorial. “Quando o Estado investe de forma planejada em ciência e tecnologia, ele não está apenas implantando equipamentos, está mudando realidades. Carrapateira é um exemplo claro de como uma política pública bem estruturada transforma o que antes era visto como limitação em oportunidade”, afirmou.
Segundo o professor Jamilton Rodrigues, coordenador da Cidade da Astronomia, a escolha do município se deu a partir de características naturais raras, que sempre estiveram ali, mas nunca haviam sido reconhecidas como potência científica. “Carrapateira tem um dos céus mais limpos do Nordeste, com baixíssima poluição luminosa, clima favorável e localização geográfica estratégica para a observação astronômica. O que antes era isolamento, hoje é vantagem científica”, explica.
Carrapateira não tem mais ciúmes da Apollo 11
Em 2003, a história de Carrapateira voltou a ser contada, desta vez por meio do cinema. O cineasta Fabiano Maciel chegou ao município para produzir o documentário “Carrapateira não tem mais ciúmes da Apollo 11”, lançado em 2004. Inspirado na reportagem de 1969, o filme revisita personagens, ruas e memórias da cidade para mostrar como a população lidava com a própria imagem e com o sentimento de esquecimento.
Ao longo da produção, Fabiano Maciel e sua equipe usaram recursos simbólicos para aproximar a comunidade do céu. Em uma das cenas do documentário, com uma luneta improvisada no ponto mais alto da cidade, os moradores observaram o universo pela primeira vez. A experiência coletiva de olhar o céu pela luneta deu lugar a uma perspectiva concreta: a Cidade da Astronomia terá o planetário mais moderno do Brasil.
Moradores contam essa história com esperança
Essa transformação de Carrapateira também é narrada por quem a estudou, viveu e sentiu cada etapa. O secretário Municipal de Meio Ambiente de Carrapateira e historiador de formação, José Irineu Mendes, dedicou sua monografia de graduação à trajetória da cidade, buscando compreender o impacto simbólico e social da reportagem de 1969 e as mudanças que vieram nas décadas seguintes.
Segundo ele, Carrapateira dos anos 1960 era completamente isolada: estrada de terra, ausência de telefonia, sem internet e sem asfalto, ligando o município a outras cidades. “Era uma cidade esquecida pela tecnologia, pelo desenvolvimento, pela modernidade”, conta.
Para o historiador, a Cidade da Astronomia representa um salto que vai além do progresso gradual. “Não foi apenas um avanço. Foi uma mudança de sistema. Uma cidade associada à pobreza extrema hoje se torna referência internacional em ciência. É algo surreal”, afirma. Para ele, o que sustenta essa virada é também o desejo coletivo da população de transformar o próprio destino.
Magnucia Lúcia Galdino da Silva, hoje com 50 anos, foi uma das participantes do documentário de 2004. Ela lembra de um tempo em que a sobrevivência dependia exclusivamente da roça. Para comprar uma roupa, era preciso plantar algodão, colher e vender. A comida vinha da terra, mas o dinheiro era escasso. “Era tudo muito difícil”, recorda.
Hoje, mesmo reconhecendo que os desafios ainda existem, ela enxerga algo novo. “Nunca imaginamos um projeto tão grande chegar a um lugar tão pequeno. O lugar é pequeno, mas o coração sempre foi grande.”
O sentimento de esquecimento atravessou gerações, mas agora dá lugar à esperança. Avó de sete netos, Magnucia acredita que o futuro será diferente para eles. “Mesmo que eu não veja tudo o que a Cidade da Astronomia vai trazer, eu sei que os meus vão assistir. E enquanto isso, vamos nos preparar. Não vamos esperar só quem vem de fora chegar. Já vamos construir hotel, restaurante. Vai tudo melhorar”, disse.
Complexo Científico do Sertão
Tudo isso faz parte de um projeto ainda maior, chamado Complexo Científico do Sertão, um conjunto de equipamentos científicos implantados de forma estratégica, com o objetivo de interiorizar a ciência e promover o desenvolvimento regional no semiárido paraibano.





