
Em meio a tubos de ensaio, cadernos marcados por cálculos e fórmulas espalhadas pelo quadro, estudantes da rede estadual de ensino descobriram, ainda no ensino médio, que a ciência podia ser mais do que um conteúdo de sala de aula. E no caso das meninas, o envolvimento com este meio gera não só conhecimento, mas quebra tabus de que a matemática e as ciências são ambientes masculinos.
No Dia Internacional das Mulheres e Meninas nas Ciências, conheceremos as histórias de Laura, Sanniely, Kelly e Estefanny, quatro jovens da rede estadual que tiveram suas vidas transformadas pela iniciação científica, e das professoras que as inspiraram, Tatiane e Nadja. Uma experiência tão marcante que fez com que três destas estudantes dessem um passo decisivo: seguir na carreira científica agora no ensino superior, após a aprovação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Uma caminhada que começou na escola pública.

A escola como porta de entrada para a ciênciaA estudante Laura Letícia Rodrigues da Costa, de 18 anos, egressa da Escola Estadual Professora Izaura Antônia de Lisboa, de Arapiraca, é um desses exemplos. A aprovação no curso de Física da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) é resultado de um percurso iniciado logo no começo do ensino médio, quando teve o primeiro contato com a pesquisa. “Assim que entrei no ensino médio fui apresentada à pesquisa e ao mundo científico e descobri que aquele era meu sonho”, contou.

Ao longo da formação, Laura participou de programas e eventos científicos que ampliaram sua visão sobre o ambiente acadêmico e a rotina de pesquisadores. A dedicação à pesquisa fez parte da rotina escolar. Mesmo estudando em tempo integral, Laura aproveitava os intervalos para dar continuidade aos projetos. Além de tudo, ela tinha o incentivo dos professores, fator que foi decisivo para que o interesse se transformasse em escolha profissional.
“Participei do PIBIC JR, Programa Futuras Cientistas, da banca de estudos do programa Futuras Cientistas, da segunda edição do Daqui pra o Mundo, e do Laboratório de Mentoria da Semana Institucional de Pesquisa, Tecnologia e Inovação na Educação Básica da Ufal, a Sinpete. Junto a esses programas, participei de alguns eventos nacionais como a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia da USP, a Febrace, e conquistei 2° lugar na Sinpete em 2025. Todos eles me marcaram profundamente porque pude aprender de maneira muito próxima como funciona a rotina acadêmica de um cientista”, pontuou.
Ela destacou ainda a importância do apoio dos professores em sua trajetória escolar. “A pessoa que mais me incentivou e me integrou neste meio científico foi a professora Nadja Souza, que não mudou apenas a minha visão da ciência, como a de muitos outros alunos que ela orientou. Também tive o apoio de outros docentes das áreas de Física e Química”, apontou.
A escolha pelo curso de Física surgiu naturalmente, como continuidade de interesses que já faziam parte da sua trajetória. “Física foi um grande encontro de tudo o que eu já gostava: matemática, ciências da natureza e a pesquisa aprofundada. Era exatamente o que me faria feliz”, relatou Laura, que pretende seguir investigando, desenvolvendo projetos e construindo novas experiências acadêmicas.
O primeiro passo rumo ao universoA estudante Sanniely Rufino, de 17 anos, da Escola Estadual Moreira e Silva, em Maceió, também foi aprovada em Física na Ufal. O interesse pela ciência surgiu ainda no ensino fundamental, durante a preparação para a Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA), quando passou a se aprofundar cada vez mais em leituras sobre o espaço, os planetas e a história da exploração científica.
“Gostava muito de ler sobre os astronautas e sobre os planetas do sistema solar, mas o momento decisivo foi quando, no meio dessas leituras, eu vi fotos de mulheres que tiveram um papel importante nos avanços científicos e me surgiu a vontade muito forte de ser como elas”, disse.
A inspiração inicial se transformou em prática ao longo do ensino médio. Sanniely participou de dois projetos do programa PIBICjr, integrou o projeto Matemática Olímpica do Moreira e Silva e também foi bolsista no Grupo de Física Instrumental e Materiais (GFIM) da escola. Além disso, ela se destacou na matemática tendo sido premiada como equipe feminina destaque na Olimpíada de Matemática da Unicamp e equipe campeã da MatExpo Ufal em 2025.
Agora, com a aprovação, seu objetivo é aprofundar a formação, descobrir novas possibilidades dentro da área e construir sua trajetória como pesquisadora. Entre os interesses que pretende desenvolver na graduação, ela destaca a astrofísica, área que reúne muitos dos temas que despertaram sua curiosidade desde os primeiros contatos com a ciência.
Para outros estudantes que pensam em seguir esse caminho, ela acredita que o apoio e a convivência com pessoas que compartilham o mesmo interesse fazem diferença. “Acho que o conselho que eu daria é se unir a pessoas que vão te impulsionar a seguir a carreira científica, seja com os seus professores ou com colegas/amigos que compartilham o mesmo interesse que o seu. Também aconselho que busquem participar de projetos de pesquisa sempre que possível”, orientou.
Pesquisa, persistência e novos caminhos
Aos 18 anos de idade, a estudante Kelly Alencar, egressa da Escola Estadual Professor Rosalvo Lobo, também de Maceió, foi aprovada no curso de Química da Ufal e de Farmácia da Faculdade UNIRB de Arapiraca. O seu primeiro contato com a pesquisa aconteceu ainda no ensino médio, quando recebeu um convite que mudaria a direção de sua trajetória escolar e profissional.

Foto Kelly Alencar
“Foi por meio de um convite feito pela professora Tatiane Lima, para participar do meu primeiro projeto, que tive contato com as feiras de ciências, com o universo científico e com a vivência direta na universidade e no laboratório”, recordou.
A experiência abriu portas para uma rotina completamente nova. A partir desse primeiro passo, Kelly passou a participar de projetos científicos, feiras e atividades acadêmicas que aproximaram a estudante do ambiente universitário e da pesquisa aplicada.
Entre os trabalhos desenvolvidos, Kelly participou do projeto “BioBijus: produção de bijuterias a partir da casca do ovo”, projeto premiado na Sinpete Ufal 2024. Em seguida, Kelly passou a integrar o projeto “SClean Sururu”, voltado ao desenvolvimento de um filtro sustentável para o tratamento da água residual do cozimento do sururu e que também foi premiado na Sinpete e no Encontro Estudantil de Alagoas.
A rotina, no entanto, exigiu esforço e persistência. Conciliar estudos, projetos, apresentações, atividades escolares e a preparação para o Enem foi um desafio constante e o apoio da sua orientadora e da rede escolar foi determinante para que ela seguisse em frente. “Minha maior incentivadora foi a Tatiane, que acreditou em mim quando nem eu mesma acreditava”, afirmou.
Na universidade, Kelly pretende seguir atuando em projetos e aprofundar o interesse pela Química Analítica, área que reúne investigação e precisão, características que, segundo ela, reforçam o desejo de continuar na pesquisa.
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Quando a descoberta começa antes da universidade
Nem todos os caminhos científicos começam com uma aprovação imediata ou com planos totalmente definidos. Para muitos estudantes, a descoberta do interesse pela pesquisa acontece aos poucos, a partir de experiências que despertam a curiosidade e ampliam horizontes. É o caso de Estefanny Lourenço, de 16 anos, estudante da 2ª série do ensino médio na Escola Estadual Professor Rosalvo Lobo, que teve o primeiro contato mais direto com a ciência dentro da própria escola.
O interesse surgiu após participar de um projeto científico, experiência que despertou sua curiosidade e a vontade de aprender mais e compreender como o conhecimento é produzido na prática. “Participar destes projetos abre as nossas mentes e nos faz ver como tudo funciona na prática, e não só na teoria”, destacou. Para outros estudantes que também pensam em participar de projetos ou investir nos estudos, ela deixa um conselho baseado na própria experiência. “Aproveite todas as oportunidades que aparecerem para você.
Apesar dos desafios, com certeza, lá na frente, tudo vai valer a pena”, disse.
Papel dos professores na formação científicaTatiane Lima e Nadja Souza estão entre as professoras mais engajadas no fomento à iniciação científica na rede estadual de ensino. Premiadas em feiras e eventos como a Febrace-USP, Sinpete-Ufal, Trakto Show e Encontro Estudantil de Alagoas, ambas se tornaram referência para seus estudantes, inspirando-os a seguir na carreira científica.

Professora de química e coordenadora pedagógica na Escola Estadual Professor Rosalvo Lôbo, Tatiane conta que, no decorrer de sua trajetória como educadora, conheceu muitos alunos que demonstravam potencial para a pesquisa, mas tinham poucas oportunidades de vivenciar experiências práticas. A partir daí, os seus projetos científicos passaram a funcionar como uma forma de aproximar teoria e prática, além de desenvolver habilidades investigativas e promover uma aprendizagem mais participativa de seus estudantes.
Para Tatiane, ver ex-alunas ingressando na universidade e optando pela carreira de Química por influência dela é uma das maiores recompensas. “Sinto grande satisfação e orgulho ao vê-las ingressando na universidade e dando continuidade a uma trajetória iniciada na escola. Acreditem no potencial dos seus alunos e ofereçam oportunidades para que investiguem, experimentem e questionem. O incentivo, a orientação e o exemplo do professor podem despertar vocações e transformar trajetórias”, declarou.
Para Nadja, que já representou a rede estadual em eventos científicos na Inglaterra e Estados Unidos, o incentivo à pesquisa científica surgiu como uma estratégia para melhorar o desempenho dos estudantes e ampliar as perspectivas acadêmicas.
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A participação em feiras e mostras científicas se tornou parte desse processo formativo. Além de permitir que os projetos sejam avaliados, esses eventos também funcionam como um estímulo para que os estudantes se dediquem mais às pesquisas e aos estudos. Segundo a professora, a vivência com a metodologia científica também provoca mudanças no comportamento dos alunos: eles passam a se dedicar mais aos estudos, demonstram maior interesse pelas aulas e buscam melhorar as notas.
“O gratificante para mim é esses alunos chegarem à universidade já sabendo da importância da metodologia científica, já terem vivenciado a metodologia científica”, contou a professora de química. Ao deixar uma mensagem para outros educadores, Nadja destaca o envolvimento dos professores nesse processo. “Como educadores, podemos fazer a diferença nas vidas de nossos estudantes”, refletiu.