
O Programa Daqui pro Mundo é um sucesso e, na sua terceira edição, levará 150 estudantes para um intercâmbio de um mês na Inglaterra, totalmente custeado pelo Governo de Alagoas. Professores e alunos selecionados vivem a contagem regressiva para a viagem, organizando malas e documentos.
Nesta reportagem, conheceremos a experiência dos estudantes João, Keyllon e Gabryelly, participantes da edição 2025, na cidade de Bournemouth, balneário no sul da Inglaterra que recebe sete milhões de turistas anualmente e é um dos principais destinos de alunos estrangeiros que buscam aprimorar o inglês em terras britânicas.
Os três voltaram para Alagoas não apenas falando um novo idioma, mas com a mente aberta para infinitas possibilidades.
Matemática, comunicação e cultura
João Pacheco, de 17 anos, partiu de Porto Real do Colégio carregando um sonho. Aluno da Escola Estadual José Reis do Nascimento, ele sempre viu na matemática uma forma prática de resolver problemas, mas descobriu em Bournemouth que a comunicação humana exige uma lógica diferente. Para ele, cruzar o oceano foi como "descobrir um mundo dentro do seu próprio mundo" e um ponto alto de sua viagem foi a visita a Camden Town, em Londres, bairro que exala a personalidade de sua cantora favorita, Amy Winehouse.
No Bayswater College, João encontrou um método de ensino dinâmico, focado em situações práticas, como fazer entrevistas e pedir informações, o que o ajudou a atingir o inglês avançado em tempo recorde. "As aulas eram muito diferenciadas e divertidas, o que me fez perder a vergonha de falar em público e aceitar que errar faz parte do processo", destaca o estudante.

Ao abrir a porta de sua host family, João foi recebido com o inglês nativo, rápido e repleto de abreviações, o que inicialmente causou um choque, mas logo se transformou em risadas e histórias compartilhadas. João voltou para Porto Real do Colégio com a mentalidade transformada e a certeza de que a coragem é o primeiro passo para uma experiência positiva. "Tudo o que vem da ousadia e do nosso próprio esforço, é uma experiência positiva, esse mês vai ser algo transformador e esclarecedor para sua vida", orienta o futuro engenheiro para os próximos viajantes.
O divisor de águas entre o saxofone e o Big Ben
Natural de Jacuípe, Keyllon da Silva, de 16 anos, é o retrato da dedicação que o programa Daqui pro Mundo busca fomentar. Aluno da Escola Estadual Major Luiz Cavalcante, ele divide o tempo entre os esportes e o saxofone, mas foi na Inglaterra que encontrou uma nova perspectiva sobre o que deseja ser: memorável. Antes da viagem, Keyllon vivia uma rotina de incertezas, mas os 30 dias em Bournemouth ampliaram seus horizontes de uma maneira que ele jamais imaginou.
A recepção em sua casa temporária foi calorosa, ele se surpreendeu com o lar acolhedor e com a visita da filha de sua host mom, que vivia na China e trouxe um intercâmbio dentro do intercâmbio ao ensinar frases em mandarim. No Bayswater College, Keyllon se encantou com a didática que misturava nacionalidades, permitindo que ele fizesse amigos do México, Coréia do Sul e Arábia Saudita. Ouvir diferentes sotaques aumentou sua percepção auditiva e vocabulário.
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O momento mágico de sua jornada foi a primeira visão do Big Ben, em Londres. Para um menino que até então só conhecia as cidades vizinhas de Jacuípe, estar diante de um dos principais monumentos do mundo foi uma experiência imensurável. "Essa viagem me mostrou na prática que buscar o conhecimento faz toda a diferença na vida. Hoje, boa parte de quem eu sou, devo a esse programa", reflete Keyllon.
Química, coragem e o fim das fronteiras
Gabryelly de Souza, de 18 anos, veio de Rio Largo carregando uma paixão pela Química e o Inglês. Aluna da Escola Estadual Ozoria De Moura Lima, ela quase deixou o medo impedi-la de se inscrever no programa. No entanto, ao vencer a insegurança, ela descobriu que o Daqui pro Mundo era o portal para realizar o que antes parecia ser apenas roteiro de filme. Em Bournemouth, ela encontrou uma cidade cheia de cultura, onde a rotina se assemelhava ao ensino integral que já conhecia em Alagoas.
A convivência com sua host family foi pautada pela educação e pela curiosidade mútua. Os anfitriões britânicos faziam questão de jantar com Gabryelly e sua dupla apenas para conversar sobre os costumes do Brasil e ajudar na pronúncia do inglês. "Eles eram muito atenciosos e perguntavam sempre se estávamos bem com a comida e a escola. Essa troca me ajudou a ser mais organizada e comunicativa", conta a estudante.
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No ambiente escolar da Bayswater, as aulas de gramática se transformavam em competições divertidas que faziam o tempo voar. Gabryelly, que antes travava na hora de falar por vergonha, conseguiu destravar o idioma ao interagir com colegas de diversas partes do mundo. Os dias em Bournemouth transformaram sua vida. "Antes, eu achava que intercâmbio era só para quem tinha muito dinheiro. Hoje, percebo que, por meio do meu estudo e do apoio do programa, sou capaz de conquistar o mundo", afirma Gabryelly, que agora planeja cursar Química e Inglês.
A missão de formar cidadãos do mundo
O grupo foi acompanhado pelo professor Isaac Leandro, mestre em Estudos Linguísticos (UFS) e doutorando pela USP. Isaac possui ampla experiência no ensino de idiomas e coordena o programa Professor Mentor na Escola Estadual Professor José Quintella Cavalcante, em Arapiraca.
Responsável por guiar o grupo em Bournemouth, Isaac destaca que a cidade é um ambiente universitário vibrante que facilita a adaptação dos alagoanos. Ele relata com satisfação que, mesmo em solo estrangeiro, os alunos encontravam formas de matar a saudade de casa, como “ir à feira aos domingos para comer pastel com caldo de cana em uma lanchonete brasileira próxima à escola”.
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Ele relata que o feedback dos professores locais foi sempre positivo, elogiando a educação e o engajamento dos alagoanos. "Ver o desenvolvimento deles não só na língua, mas na inserção em um ambiente totalmente novo, é a maior recompensa para qualquer educador", afirma.
Isaac reforça que levar alunos da rede pública para o exterior é uma forma poderosa de democratização. "Muitos nunca tinham ido ao cinema ou visto o mar. A bagagem que eles constroem é o maior retorno para a formação de cidadãos engajados com a sociedade", pontua.