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O prazer na violência, em pela metade, série da HBO MAX

Não basta questionar a violência no polo de quem a oferta – Ruben, sem considerar, também, o lado de quem a usufrui – Niall

Colaboração para o Jornal Online Alagoas
Por: Colaboração para o Jornal Online Alagoas Fonte: Francisco Neto Pereira Pinto
15/06/2026 às 17h14 Atualizada em 15/06/2026 às 17h23
O prazer na violência, em pela metade, série da HBO MAX
Foto: Reprodução/HBO Max

A série Pela metade (título original Half Man), da HBO MAX, já chegou a figurar no top 10 da plataforma e tem suscitado críticas em importantes veículos da imprensa brasileira. O mote, no geral, é uma certa concepção de masculinidade, às vezes chamada de tóxica. Claro que, como boa obra de arte – acredito que conquistará várias estatuetas na temporada de prêmios -, a série oferece várias portas de entrada, e a nossa será pela via do prazer na violência, e não o prazer da violência. Como veremos, não basta combater a oferta de violência se, por outro lado, não se apontar os faróis lá para onde ela é usufruída, e com certo prazer, inclusive. 

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Entre o pânico e o fascínio

Ruben é o mais velho, com 17 anos, e Niall, o mais jovem, com 15. As mães dos dois decidem viver juntas, como casal – o pai de Niall já é falecido e o de Ruben, embora vivo, conta apenas com uma aparição na série, enquanto bêbado e, mais tarde, no último episódio, ficamos sabendo que era um homem abusivo, porque o próprio Ruben revela que sofria violência física e sexual do pai. Essa revelação se coloca, talvez, como uma espécie de justificativa para o comportamento impulsivo e violento de Ruben, que estreia na série como interno em uma instituição para menores infratores. 

Na escola, Niall fica sabendo que Ruben foi solto e, mais tarde, que irão dividir o mesmo quarto. Este é o momento em que conhecemos a natureza violenta de Ruben – mesmo sem tê-lo visto -, pelo pânico de Niall. Porém, para que Ruben continue solto, ele precisa realizar uma prova e ser admitido no colégio, o mesmo em que Niall estuda. Contudo, ele não se prepara, chega atrasado, e já é certa sua reprovação – não fosse a intervenção de Niall, que responde a prova pelo irmão de outro coração, como passam a se chamar. Aliás, certa noite, dormem na mesma cama, em clima de intimidade.

Masoquismo?

Não é de repente – na verdade, demora um pouco até percebermos o prazer que habita o pânico de Niall, provocado pela presença de Ruben. As evidências, por sua vez, vão se distribuindo ao longo dos seis episódios. Quando Niall depõe contra Ruben, por ter quase matado Alby, cujo resultado foi cerca de 10 anos de prisão para Ruben, parece que o círculo de violência entre eles seria rompido. Contudo, é o próprio Niall que confessa a Ruben, no hospital, que por todo aquele tempo também viveu uma prisão – uma série de desventuras e errâncias em função de seu sentimento de culpa. Dito de outro modo, mesmo da prisão, Ruben continuava a ser o carrasco de Niall. Por fim, Niall tem relações sexuais com a esposa de Ruben, o que resulta em gravidez – Ruben é estéril e deseja muito ser pai. O desfecho será a morte – para os dois?

Para muitos, a ideia de sentir prazer no sofrimento, na humilhação, na dor, pode parecer estranha e desconfortável. Não é à toa que a série seja constantemente rotulada exatamente como desconfortável. Talvez isso se dê porque, historicamente, essa forma de satisfação, conhecida como masoquismo, tenha sido associada à posição passiva. Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, em seu ensaio Os instintos e seus destinos, de 1915 (Companhia das Letras), dizia que, no sadismo, alguém pratica violência contra outra pessoa, tomando-a como objeto. No masoquismo, por sua vez, encontramos uma pessoa que frui a violência, quer tenha consciência disso ou não, na posição de objeto. Do ponto de vista das masculinidades, o masoquismo tem sido associado ao feminino e, por isso, bastante estigmatizado.

Coisa humana

Abordar a violência associada às masculinidades exige, como se vê, uma postura que vá além do puro moralismo. Trata-se, na verdade, de um traço próprio à humanidade. Por isso, a agressividade humana não pode ser banida, sem que com isso o próprio ser humano também seja extinto, conforme diz Freud, em sua carta a Albert Einstein, de 1932. Além disso, em ensaio de 1924, O problema econômico do masoquismo, Freud afirmou que o masoquismo é primário em nosso psiquismo, e não secundário, como considerava até então. Isso quer dizer, que ele faz parte da constituição da identidade de uma pessoa e, em alguma medida, está presente em todo mundo, do que é testemunha, por exemplo, o sentimento de culpa, bastante visível em Niall.

A grande questão não é se alguém é sádico ou masoquista, mas sim o que ele faz com isso. Para não ser engolido pelo próprio desejo de violência – e causar o mal a outros e à sociedade, é necessário ter alguma medida de consciência quanto a isso. Niall era cego quanto ao seu masoquismo e, consequentemente, não sabia o que fazer com ele. Era levado para caminhos destrutivos que não reconhecia como seus, como se guiado por um destino cruel e inexorável, como diria Freud em Além do princípio de prazer, de 1920. Um caminho possível, assertivo, foi a escrita de um livro se valendo de sua história e de seu desejo, que o alçou à fama. Contudo, essa jogada certeira não foi suficiente para barrar sua marcha para a morte.

Conhece-te a ti mesmo

O desejo humano é como uma esfinge: ou a gente a decifra ou ela nos devora. Embora não seja possível colocar o desejo totalmente a claro, pode-se discernir em que sentido seus raios brilham. Assim como Niall, muitos de nós vive em lamaçal destrutivo em vários âmbitos da vida. Pode ser no trabalho, em que o chefe é do tipo Ruben, mas do qual o subordinado nunca consegue se livrar. Ou, ainda, na esfera da amizade, em que o amigo sempre coloca o outro em saia justa ou em sinuca de bico, mas de quem nunca consegue desgrudar. A lista poderia se estender para todas as direções da existência, mas é suficiente que cada examine a si mesmo quanto a em que direção seu masoquismo está levando-o. Não se trata de negá-lo, mas utilizá-lo de maneira proveitosa e não prejudicial.

Francisco Neto Pereira Pinto é Psicanalista, Escritor e Professor Universitário. Doutor em Letras, atua como professor permanente no Programa de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) em Linguística e Literatura da Universidade Federal do Norte do Tocantins. É autor do livro de contos À beira do Araguaia.

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Francisco Neto Pereira Pinto
Francisco Neto Pereira Pinto
Francisco Neto Pereira Pinto é esposo da Ana Paula e pai do Théo e do Ravi. Doutor em Letras, é psicanalista, escritor e professor permanente no Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura – Mestrado e Doutorado, da Universidade Federal do Norte do Tocantins. É autor de vários livros de literatura, dentre eles À beira do Araguaia. Instagram: @francisconetopereirapinto
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