Domingo, 12 de Abril de 2026
25°C 29°C
Maceió, AL
Publicidade

Como fui parar no Instagram da Marina Ruy Barbosa

Francisco Neto Pereira Pinto, é também signatário do livro “O menino que selecionava sabores”.

Colaboração para o Jornal Online Alagoas
Por: Colaboração para o Jornal Online Alagoas Fonte: Francisco Neto Pereira Pinto
13/11/2025 às 17h15 Atualizada em 13/11/2025 às 17h20
Como fui parar no Instagram da Marina Ruy Barbosa
Foto: Colaboração para o Jornal Online Alagoas

Quando a série documental ficcional Tremembé: A Prisão dos Famosos surgiu no meu radar, confesso que a primeira reação foi de desinteresse. Com um tema tão explorado pela mídia e pelo audiovisual brasileiro, pensei: lá vem mais uma tentativa de capitalizar sobre a tragédia, prometendo um ângulo novo que, no fim, resultaria em mais do mesmo. Um certo ceticismo, o mesmo que nos acompanha ao ver a saturação de conteúdos sobre figuras polêmicas como Ted Bundy, me impedia de dar uma chance ao novo produto do catálogo.

Continua após a publicidade
Anúncio

No entanto, o sinal de alerta veio do próprio público: em menos de uma semana, Tremembé já ostentava o topo do ranking da Prime Video. Decidi ignorar sinopses e críticas e mergulhar direto no conteúdo. A surpresa foi imensa e veio, especificamente, da performance central: a atuação refrescante de Marina Ruy Barbosa como Suzane Von Richthofen.

Para quem nunca acompanhou seus trabalhos em telenovelas, como é o meu caso, não há qualquer filtro de memória afetiva ou preconceito. Essa distância permitiu que eu me rendesse à complexidade que Marina imprimiu à personagem. A grandeza de sua Suzane reside em uma escolha ousada: a atriz evita as leituras estáticas e simplistas que as leituras de matriz sociológica ou psiquiatra tentaram imprimir à figura real – seja a da pobre menina rica filha de pais ausentes ou a da psicopata fria. Marina fica aquém dos estereótipos e, paradoxalmente, vai muito além.

A Suzane de Ruy Barbosa ganha matizes, densidade e complexidade. Ela é, a um só tempo, vulnerável e perversa. Demonstra medo e ansiedade, mas também uma frieza calculista e estratégica. Não há, em momento algum, a tentativa de imprimir o verniz de vítima ou de monstro sem alma. A personagem é uma teia de ambiguidades que atiça a curiosidade a cada cena.

O mais notável é a sutileza da construção. Marina não apela à espetacularização. Sua performance é feita de camadas: um gesto, um olhar, uma expressão – tudo significa, nada é de graça. O cinismo, por exemplo, não é um cartão de visitas, mas uma marca que se constrói lentamente ao longo da temporada, sem jamais sequestrar por completo a humanidade da personagem – ele faz parte da personalidade, mas não representa a totalidade do que seria Suzane.

A Suzane que emerge de Tremembé é uma figura inédita. Talvez por não se preocupar em responder quem é a verdadeira Suzane Von Richthofen, a atuação de Marina Ruy Barbosa refunda a narrativa que há mais de duas décadas alimenta o imaginário brasileiro. Ela nos ensina que a tarefa da arte não é capturar a vida em sua literalidade – afinal, nenhuma vida cabe inteiramente na arte e, se coubesse, talvez nem nos interessasse. Sua arte é a transfiguração: não é a realidade, mas poderia ser, renovando nosso olhar e tornando a vida mais instigante e vibrante do que jamais vimos, porque por um momento fomos retirados do automatismo.

Como toda boa obra de arte, a performance de Marina Ruy Barbosa desafia o pensamento crítico a se movimentar. Assim como a complexidade da vida, ela nos convida a falar, mas sem a pretensão de nunca se esgotar. O tempo dirá o impacto dessa atuação em sua carreira, mas o sucesso de Tremembé já é, em grande parte, o sucesso dessa sua corajosa e marcante transfiguração artística.

 

Francisco Neto Pereira Pinto é Psicanalista, Escritor e Professor Universitário. Autor de O menino que selecionava sabores. @francisconetopereirapinto

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Maceió, AL
28°
Parcialmente nublado
Mín. 25° Máx. 29°
30° Sensação
3.95 km/h Vento
67% Umidade
97% (6.45mm) Chance chuva
05h26 Nascer do sol
17h20 Pôr do sol
Segunda
28° 25°
Terça
26° 24°
Quarta
27° 25°
Quinta
27° 25°
Sexta
26° 25°
Publicidade
Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,01 +0,19%
Euro
R$ 5,87 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 378,031,73 -2,71%
Ibovespa
197,323,88 pts 1.12%
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade