
A despedida é carregada de emoção, mas também de esperança. Mila, uma fêmea de sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita), de 2 anos, nascida no Centro de Conservação da Fauna Silvestre (Cecfau), unidade vinculada à Diretoria de Biodiversidade e Biotecnologia (DBB) da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), iniciou na sexta-feira (30) uma nova etapa de sua vida. O destino é o Parque Zoológico de Sapucaia do Sul (RS), administrado pela Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul (Sema-RS), onde ela formará um novo par reprodutivo e contribuirá diretamente para a conservação genética da espécie, ameaçada de extinção.
A transferência segue as recomendações do Programa de Manejo Populacional Integrado do sagui-da-serra-escuro, com base nas orientações do consultor genealógico da espécie (studbook keeper), e faz parte de uma estratégia nacional que visa garantir populações geneticamente saudáveis, promovendo a formação de novos casais, o manejo populacional responsável e a preservação da biodiversidade.
“Cada animal transferido carrega uma história e uma missão. A Mila representa um marco importante no trabalho desenvolvido pela Semil, por meio da DBB e do Cecfau, na conservação de espécies ameaçadas. Essa parceria com o zoológico do Rio Grande do Sul amplia as possibilidades de reprodução e fortalece a diversidade genética da população, o que é essencial para a sobrevivência da espécie”, destaca Patrícia Locosque, diretora da Diretoria de Biodiversidade e Biotecnologia (DBB) da Semil.
Uma história marcada por superação
Mila nasceu em 30 de março de 2023, filha do casal Bia e Xereta, residentes do Cecfau. Antes dela, sua mãe havia perdido seis filhotes durante o parto, em um histórico reprodutivo extremamente delicado. Por isso, o nascimento saudável da pequena sagui foi considerado um verdadeiro milagre – inspiração para o seu nome.
“O nascimento da Mila foi um momento muito especial para toda a equipe. Depois de tantas perdas, vê-la crescer forte e saudável foi uma grande conquista. Cada cuidado, cada acompanhamento veterinário, cada etapa do seu desenvolvimento foi vivida com muita dedicação”, conta Giannina Piatto Clerici, bióloga do Cecfau. “Hoje, a despedida emociona, mas sabemos que ela segue para cumprir um papel fundamental: ajudar a garantir o futuro da sua espécie, completa Mayara Caiaffa, veterinária-chefe do centro.
Atualmente, o Cecfau abriga 14 indivíduos de sagui-da-serra-escuro, incluindo dois casais reprodutores. Desde o início do programa, 15 filhotes já nasceram na instituição, resultado de um intenso trabalho técnico, científico e de manejo. Apesar dos desafios – com 10 perdas neonatais, sendo seis apenas dos pais de Mila – , os resultados representam um avanço significativo para a conservação da espécie.
Viagem solidária
O transporte de Mila foi realizado gratuitamente pela Latam, por meio do programa Avião Solidário, que há 14 anos apoia iniciativas ligadas à saúde, humanitárias e ambientais em todo o Brasil. A operação aérea garantiu um deslocamento mais rápido, seguro e confortável, reduzindo significativamente o tempo de viagem e o estresse do animal.
Desde sua criação, o Avião Solidário da Latam já viabilizou o transporte de 4,6 mil animais em ações de conservação ambiental, além de apoiar operações humanitárias em diferentes regiões do país, reforçando o compromisso da companhia com a sustentabilidade e a proteção da biodiversidade.
Para a Latam, participar de iniciativas como essa reforça o compromisso da companhia com a sustentabilidade e a conservação da biodiversidade. “O Avião Solidário traduz o propósito da Latam de gerar impacto positivo além da aviação, conectando sua capacidade logística a iniciativas sociais, humanitárias e ambientais, ampliando o alcance de ações que promovem o desenvolvimento sustentável”, afirma Raquel Argentino, Head de Sustentabilidade e Impacto Social da Latam Brasil.
Novo lar e nova missão
No Zoológico de Sapucaia do Sul, Mila passará por um período de quarentena e adaptação, com acompanhamento veterinário, antes de ser apresentada ao macho Lindo, que vive no local desde 2024. Juntos, eles formarão um novo casal reprodutivo dentro do Programa Nacional de Conservação do Sagui-da-Serra-Escuro, coordenado pelo ICMBio, em parceria com a Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil (AZAB).
Segundo o biólogo do Parque Zoológico, Eduardo Polanczyk da Silva, a chegada da Mila é de grande importância para a conservação desta espécie de primata da Mata Atlântica. ”O zoo participa do Programa Nacional de Conservação do Sagui-da-Serra-Escuro, que tem por objetivo manter uma população de segurança da espécie. Esse trabalho possibilita ações de reforço populacional em áreas onde ainda existam sagui-da-serra-escuro, bem como de reintrodução em áreas onde a espécie tenha sido localmente extinta”, explica.
A espécie é endêmica da Mata Atlântica e ocorre exclusivamente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Atualmente, está classificada como “Em Perigo de Extinção”, segundo a Lista Nacional de Espécies Ameaçadas (2022). Estima-se que restem cerca de 10 mil indivíduos em vida livre, número que vem diminuindo drasticamente devido à perda e fragmentação do habitat, além da competição e hibridização com espécies invasoras de saguis.
Ao seguir viagem, Mila leva consigo mais do que a saudade de quem a viu nascer e crescer. Ela carrega a esperança de um futuro mais equilibrado para sua espécie – um pequeno grande passo em prol da conservação da Mata Atlântica e da fauna brasileira.