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Todo ano, à medida que o cheiro de milho e a fumaça de fogueiras tomam conta do Nordeste, as unidades de saúde de Alagoas se preparam para a chegada de vítimas de queimaduras. No HGE, única unidade do Estado com Centro de Tratamento de Queimados (CTQ), a equipe conhece bem esse cenário e a cirurgiã plástica Anna Lima, que coordena o serviço, tem um recado claro para quem vai festejar o São João: o fogo não perdoa. Mas, o que fazer, caso alguém sofra alguma queimadura durante os festejos juninos?
De acordo com especialista, mesmo com todos os cuidados, acidentes podem acontecer. Nesses momentos, a primeira resposta faz diferença entre uma recuperação rápida e sequelas sérias. Por isso, Anna Lima orienta o que deve, e o que definitivamente não deve, ser feito nos primeiros minutos após uma queimadura. Ela salienta que, em caso de acidente, irrigar a queimadura com água corrente é a melhor solução.
“Resfrie imediatamente a área atingida com água corrente limpa, em temperatura ambiente, por 15 a 20 minutos. Esse é o único tratamento recomendado antes do atendimento médico. Cubra a área com gaze limpa ou pano limpo e úmido para protegê-la até chegar ao hospital”, ensinou a especialista.
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Em caso de queimadura nos olhos, é importante que eles sejam cobertos com gaze limpa, não sejam lavados e que a vítima seja levada ao atendimento oftalmológico com urgência. Em caso de queimaduras extensas, profundas, o paciente pode receber o primeiro atendimento pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), ou procurar a unidade de emergência mais próxima.
“Jamais aplique manteiga, pasta de dente, pó de café, teia de aranha, óleo, clara de ovo nem qualquer ‘receita caseira’ sobre a queimadura, esses produtos aumentam o risco de infecção e pioram a lesão. Não use gelo ou água gelada, podem agravar o dano tecidual. Não estoure bolhas, pois elas protegem a ferida aberta. Não aplique pomadas, cremes ou medicamentos sem orientação médica. E não tente retirar pedaços de roupa grudados na pele queimada”, enumerou a cirurgiã plástica.
Em Alagoas, o CTQ do HGE é a referência para casos de queimadura de média e alta complexidade. Casos mais leves devem ser atendidos na unidade de urgência e emergência mais próxima, como as Unidades de Pronto Atendimento (UPA). Havendo necessidade de internação especializada, a transferência é regulada pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesau).
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Prevenção
Mas Anna Lima orienta que a melhor opção é a prevenção dos acidentes, evitando o uso de álcool ou substâncias inflamáveis para acender o fogo e as fogueiras. Os números explicam a preocupação. Segundo dados da Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ), cerca de 10 mil pessoas são atendidas por ano no Brasil em decorrência de acidentes com queimaduras durante o mês de junho.
No próprio HGE, os registros são expressivos: entre janeiro e maio de 2026, a unidade atendeu 127 vítimas de queimaduras; o mesmo número observado no mesmo período de 2025. No ano passado foram 288 admissões por queimadura; em 2024, 307.
"Os fogos de artifício, se manuseados de forma incorreta, podem causar queimaduras, além de mutilações nos dedos e lesões graves nos olhos. Além das mãos e dos dedos, as partes do corpo mais atingidas, rosto e olhos, figuram entre as regiões mais afetadas, podendo resultar em sequelas permanentes, incluindo perda parcial ou total da visão", salienta Anna Lima.
Crianças são as vítimas mais vulneráveis
Estudos brasileiros mostram que menores de cinco anos são os mais expostos ao risco, devido à curiosidade natural e à dificuldade de reconhecer situações de perigo. Dados do Ministério da Saúde apontam que aproximadamente 400 mil crianças de até cinco anos sofrem queimaduras por ano no Brasil, e 30 mil delas precisam de internação hospitalar.
Se a tradição for mantida, saiba como reduzir os riscos O HGE reconhece o peso cultural do São João no Nordeste. Por isso, ao lado do alerta, a orientação da cirurgiã plástica é também prática: se a decisão for manter a fogueira acesa ou os fogos no céu, que seja com o máximo de cuidado possível.
“Use roupas de algodão, tecidos sintéticos derretem e grudam na pele; mantenha distância segura das chamas e nunca vire as costas para o fogo; tenha sempre por perto baldes com água ou extintores; nunca use álcool, gasolina ou qualquer inflamável para avivar a fogueira; não deixe crianças, idosos ou pessoas embriagadas próximos às chamas sem supervisão; certifique-se de que a fogueira está completamente apagada ao final da festa”, orienta Anna Lima.
A especialista também recomenda que as pessoas nunca manuseiem fogos de artifício sob efeito de álcool; usem apenas produtos com certificação do Inmetro, adquiridos em locais autorizados; sigam as instruções do fabricante à risca; soltem fogos apenas em áreas abertas, longe de pessoas, fiações elétricas e construções; nunca direcionem fogos em direção ao próprio corpo ou a outras pessoas; não tentem reacender ou reutilizar fogos que falharam; e mantenham crianças e adolescentes sempre afastados e sob supervisão de adultos.
"Além do tratamento imediato, muitos pacientes necessitam de acompanhamento prolongado, procedimentos cirúrgicos, curativos especializados e reabilitação física e emocional. Dependendo da gravidade, as sequelas podem impactar a mobilidade, a autoestima, a convivência social e a qualidade de vida", alerta Anna Lima, salientando que prevenir é sempre a melhor opção.
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